Todos tem acompanhado a calamidade que está Teresópolis.
Diante disso, Deus mexeu demais comigo e senti que precisava fazer algo.
Sei que sou só uma, mas tenho certeza que um pode sempre fazer a diferença.
Jesus foi um.
No domingo 16.01.2011 fui com minha tia até Teresópolis.
Pegamos o carro e fomos.
Meu carro, não é um 4x4.
Apenas um fiat 99, cheio de probleminhas mecânicos.
Mesmo assim fomos.
Não sabíamos o que faríamos nem para onde iríamos, apenas tínhamos informação de que precisávamos fazer o cadastro na Defesa Civil.
Cadastro feito, nos enviaram para o ginásio do Pedrão, e delá fomos enviadas para um galpão com mantimentos para fazer cesta básica.
Confesso, nada era muito organizado, mas a vontade do povo em ajudar era tanta, que tudo dava certo.
E vamos combinar... quem estava preparado e organizado para tal acontecimento?!?
Em meio a muita gente, muitos mantimentos, muito barulho e muitos caminhões, formamos um quarteto com 2 meninas e fizemos uma média de 100 cestas básicas.
Não mudamos a situação de Teresópolis e seus bairros, mas sem dúvida, estas cestas carregaram todo nosso carinho, amor e suor para quem recebê-las.
Voltamos para o Rio de Janeiro no mesmo dia.
Na segunda, dia 17.01.2011 retornei a Teresópolis como voluntária da minha igreja - Igreja Batista do Méier.
Eu e mais 6 jovens de idades entre 20 e 27 anos fomos dividos em uma van e meu carro.
Uma kombi da JMN (Junta de Missões Mundiais) já havia subido com doações recolhidas por nossa igreja.
Fomos encaminhados pelo Pr. Fernando para a Igreja Batista Central de Teresópolis, de onde iríamos para o bairro de Vieira, um dos mais atingidos.
A ida à Teresópolis e Vieira foi uma benção e grande experiência.
Realmente a situação por lá está crítica.
No Centro, como já tinha visto no domingo, fisicamente está tudo bem, mas a correria no local é tremenda.
Policiais, bombeiros, exército, defesa civil, voluntários, desabrigados e muitos outros andam de um lado para o outro à procura de como ajudar.
Os locais de abrigos e entregas de doações estão cheios e as cidade lotada.
O desespero e a esperança tomam conta dos rostos das pessoas.
E a solidariedade reina.
Em Teresópolis, na Igreja Central, vivenciamos o amor cristão total.
Em uma das falas do Seminarista Eliezer, quem foi à nossa igreja pegar as doações de kombi e nos acompanhou à Vieira, ele disse que isso que é ser Igreja.
Realmente, acho que Igreja é isso.
Nós, juntos, independente de um templo ou um edifício.
O povo de Deus reunido falando de Seu amor, ensinando sobre Seu amor e vivendo o Amor de Deus.
Se cada um pudesse experimentar isso...
Na Igreja, também vimos as reais necessidades das pessoas que estão abrigadas ali.
São em média 60 pessoas entre homens, mulheres e crianças.
Família inteiras, casais e pessoas sozinhas.
A grande maioria dos que estão ali, não perdeu sua casa, nem estas estão interditadas, mas para não correrem risco, a Defesa Civil achou por bem que ficassem fora até que as chuvas terminassem.
Mas muitos perderam familiares.
Por lá, as necessidades são de comida para alimentar os alojados, roupa de banho e formas de falar do amor de Deus a estas pessoas.
A equipe da igreja que está trabalhando precisa de muito apoio, pois estão sobrecarregados.
O stress é visível, assim como o sustento de Deus.
Passamos o final da tarde e noite na igreja, onde jantamos, participamos do culto e conversamos com os alojados.
No final da noite, Livia e eu fomos ao posto médico levar uma mãe e um bebê para serem atendidos, e retornamos a igreja, onde dormimos.
No dia seguinte pela manhã, tomamos café e partimos para Vieira juntamente com outros irmãos.
Nos preparamos com galochas.
A vacina também era importante.
Em Vieira, as necessidades são outras.
À caminho pudemos perceber.
A cidade foi TOTALMENTE destruída.
Poucas casas ficaram de pé.
Ao entrarmos, parecia que estávamos assistindo ao desastre em Nova Orleans causado pelo furacão Katrina.
Telhados arrebentados, carros revirados, casas pela metade, sofás na rua...
Foi pavoroso ver tudo aquilo.
Mais adiante, quase na entrada da rua da Igreja de Vieira nos deparamos com a realidade de muitos.
Em frente ao Hotel São Moritz, ou ao que restou dele, bombeiros com cães farejadores da Espanha, trazidos pela K-9 de Creixell, uma organização nãogovernamental que atua com os animais em grandes catástrofes pelo mundo, haviam encontrado um corpo.
Observar a cena e a atuação dos bombeiros, sem dúvida, foi viver um pouquinho daquilo que parentes estão vivenciando.
Não tenho como descrever o sentimento que me tomou, vendo o corpo daquele homem e tentando imaginar pelo que ele teria passado.
Isso foi apenas um dos rastros que o pequeno riacho ao fundo deixou.
Na Igreja conseguimos entender melhor o que aconteceu.
Aos fundos da Igreja passa o riacho, que no dia do temporal transformou-se em um imenso rio violento e impetuoso.
Mesmo que descrevessem em detalhes era impossível ter real noção do que era este rio.
Fomos a um dos locais onde o grande rio passou e conversamos com pessoas que vivenciaram o momento.
Nas poucas casas que restaram, ficaram as marcas da tragédia.
Nos locais onde existe NADA, é quase impossível imaginar que haviam casas, plantações, pontes, carros, árvores e VIDA.
Este sendo o bem mais precioso, e um dos que mais foi perdido.
E a maior dor, perdido sem terem conhecido a palavra de Deus, e o Seu imenso amor.
O povo de Vieira, assim como de toda Teresópolis, carregam no rosto uma expressão que não dá para definir.
É uma mistura de dor, esperança, desilusão e cansaço.
Deus com certeza tem sustentado os sobreviventes desta catástrofe.
Não vejo condições humanas para isto.
Vieira precisa de muita oração e ajuda.
O povo daquele bairro, precisa de muito carinho e tempo.
As doações são complemento.
A necessidade deles contarem as histórias que vivenciaram é enorme.
Você não precisa perguntar, o tempo todo alguém chega à você para contar as histórias.
Penso que está tão difícil de acreditar no que aconteceu, que de repente contando por diversas vezes, eles acabem conseguindo entender ou encontrando uma resposta.
Realmente a dor é inimaginável.
Chegando nosso horário de voltar à Teresópolis, uma imensa nuvem pairava sobre nossas cabeças e a chuva caiu.
A maior desde a tempestade.
Em minutos, o riozinho que estávamos vendo, virou um imenso rio.
Confesso um medo que jamais senti tomou conta de mim.
Alguns ajoelharam-se em oração, outros ficaram vendo o rio com perplexidade e outros preferiam nem olhar.
A tensão era sentida por todos.
Naquele momento já estávamos certos de que ficaríamos por ali mais uma noite, pois as notícias eram de que a estrada estava fechada por causa da chuva que a invadia.
Mas Deus é maravilhoso e não faz a obra pela metade.
Ele só queria nos dar a oportunidade de ter um pequeno entendimento do que aconteceu, pois só aos olhos, estava difícil de entender.
A chuva cessou, e enfrentamos a estrada, sem a certeza de que conseguiríamos passagem.
O centro de Vieira estava mais revirado, pessoas nas ruas não acreditando que a chuva havia voltado, na estrada, em alguns pedaços, a água dos rios ainda a invadia, carros e caminhões que estavam trabalhando na retirada dos entulhos ficaram atolados.
Conseguimos chegar em Teresópolis ainda dia.
Nos organizamos e voltamos ao Rio.
Sem muito mais o que dizer, e somente agora conseguindo aliviar a dor que senti por lá.
Deixo algumas fotos...
Todas as fotos estarão nos endereços: